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segunda-feira, 6 de agosto de 2007

13 de agosto

Era uma noite fria e escura, porque era agosto. Ela vestia-se com esmero. Como fazia há tempos, só que dessa vez sob os olhos inspetores da neta. O medo de que as tradições se perdessem estava nítido no espelho quando ela se mirava, adornada. Griô que era, precisava transmitir seus conhecimentos adquiridos com a mãe, e que a mãe aprendera com a avó e esta com a bisavó e aquela com... Eram irmãs.

A noite não tinha lua, mas o tapete luminoso já se espalhava ladeira D’Ajuda abaixo. Ela nem lembrava mais qual era o aspecto que se tinha daquela procissão branca e iluminada, tanto tempo fazia que se tinha incorporado a ele. De cima os casarões avistavam as romeiras sem discernir de qual geração se tratava, mas cientes de que a santa – que ali ia deitada como que morta – dias depois, de pé e ressurrecta, traria alegria àquelas vestes e rostos.

Os olhares se voltavam para o cortejo silencioso e os sobrados debruçavam-se por sobre as ruas “cabeças-de-nego” por onde aquelas mulheres passavam espalhando seu passado. As línguas se misturavam, admiradas, como numa Babel, registrando em clicks e “oh!” o ritual único.

As famílias que o ano inteiro cuidavam de suas senhoras fracas e acarretadas de doenças ( “um reumatismo, minha filha!”; “artrose, ó paí, não consigo nem fechar os dedos!”, uma dor nas cadeiras!) refletiam sobre aquela mudança repentina: os rostos desfigurados pela morte de sua Senhora, os ritos sagrados e secretos a portas fechadas que elas insistiam em negar, a vitalidade e o deboche que reinava no samba-de-roda madrugada adentro. Quem eram aquelas mulheres? Quem eram aquelas mulheres! Quem eram aquelas mulheres...

Na frente do cortejo vinha ela. Pensava na novela que tinha acabado de começar. Será que era hoje que se ia descobrir a armação que fizeram para o casal? Pensava no pé apertado dentro do sapato: faltavam ainda tantas ruas! Pensava no mundaréu de gente que se avolumava para vê-las desfilar pelas ruas. Pra onde levariam aquelas imagens? Seu mundinho de fama...Bem que podiam levá-la para falar sobre a irmandade, passear um cadinho, seria muito bom, conhecer lugares!

Pensou em quanto era sozinha: depois que os pais se foram para sempre, os pais que lhe ensinaram tudo quanto era. Depois que os filhos se foram cada um trilhar seu destino e o próprio destino tornou a vir buscar aqueles que com ela ficara... “Valha-me, Nossa Senhora da Boa Morte! O que será de mim sozinha nesse caminhar tão longo? Meus pés doem, meus desejos já não encontram tempo para se realizar e meus olhos esmorecem: é tarde e tudo está escuro...” A chama da vela clareou dois olhinhos que a observavam enquanto caminhava: estava jovem e nela os pés não doíam e os olhos permaneciam sagazes. A neta que andava com ela passo-a-passo apertou forte a aba de seu vestido e procurou sua mão. Dentro dela algo se acalmou como águas que depois de agitadas pelo vento litorâneo encontra o sossego da brisa...

Era chegada a hora de entoar os hinos em louvor a Nossa Senhora da Boa Morte. Olhou para o lado direito. A neta apertava-lhe a mão. No lado esquerdo viu aproximar-se a mãe, a irmã, a avó, a bisavó e toda sua geração de mulheres negras e guerreiras que tinham fundado e transmitido aquela tradição. Cantou fervorosamente a liberdade conquistada ainda hoje a cada dia. Cantou os meios encontrados de manter vivo seus rituais. Cantou a força dos ancestrais e a coragem de mulheres valentes. Cantou sua Senhora que ressuscitaria garantindo-lhes uma boa morte e uma vida razoável. Cantou uma tradição que, como dizia sua “mãe”, não evolui. Cantou. E cantando esqueceu que em suas mãos o toco de vela ameaçava queimar-lhe os dedos.

Carine Araújo*

Obs* Quadro: Ronny Bonn