Formulário de Pesquisa

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Morena Bonita ou Muito prazer, o quotidiano.


Morena Bonita
ou Muito prazer, o quotidiano.


Morena Bonita subia a ladeira
Todo dia, todo dia, todo dia
Morena Bonita descia a ladeira
Todo dia, todo dia, todo dia
Morena Bonita é estudiosa
Quer ser juíza pro mundo ajeitar
Morena Bonita descia a ladeira
Topava com ônibus lotado
Passava da hora de comer
Mas nunca desistia
Morena Bonita subia a ladeira
Olhava bandidos sem medo nos olhos
Prostitutas, drogados, crianças de rua
Ela, um dia, iria socorrer
Morena Bonita era respeitada
Descia e subia sem restrição
Com o corpo delgado pra lá e pra cá
Tentava a muitos
Mas, ai daquele!
Que em Morena Bonita pusesse a mão
Morena Bonita era pra venerar
Diziam as crianças adultas
A quem ensinava a lição
“- No mundo não pode haver
Alguém com tão bom coração!”
Um dia ansioso amanheceu no morro
E encontrou Morena Bonita já no lotação
Tinha as mãos suadas
E grande agitação
Morena Bonita ia fazer a prova
Passaporte a um novo universo
O sonho, a realização
Morena Bonita sentou na cadeira
E por alguns dias a cena se repetiu
Pensava, pensava, marcava, marcava
Foram dias de angústia
Tensão e amarga espera
Até que lá na favela
O grande dia apareceu
Nasceu um tanto amarelo
Com nuvens bem carregadas
Um dia triste, eu diria
Mas para Morena Bonita aquele era o seu dia
Saiu bem apressada
Os dedos cruzados na mão
Comprara o primeiro jornal
Pegara o lotação
Mas a caminho de casa
O presságio se materializa
Atiram contra o ônibus
Adentram para assaltar
Tem dinheiro um ou outro
Resolvem o abandonar
Deixando pra trás um corpo
Seio nascente quase à mostra
Cabelos ondeando pelas costas
Um buraco formado na face
Um filete de sangue a escorrer
Com os olhos entreabertos
A olhar seus assassinos
A futura juíza trazia, inerte
Um jornal enrolado na mão
Seu trunfo, 1º lugar
Na faculdade da região
Nem podia mais comemorar
Pois a justiça mais uma vez
Fugia da sua mão
A chuva fina eram lágrimas
No corpo de Morena Bonita
E um clamor abafado
Devolvia aos céus o choro da chuva
Como vapor de paz...

Figura em código


Figura em código


Ninho de girassóis
Sem flor
Cirandando criança
Feito lua nova encheiando
Vira um vento, de leve...

***

Brinca em teus doces
Cabelos de menina
Revolve , boliçoso,
Tua saia de mulher
Descobre enfim
Ninhos
De frutos maduros

Espelho, espelho meu...


Espelho, espelho meu...


Um dedo em riste
Nos diz que somos velhos
Gordos
Esquálidos
Antipáticos
Feios
Somos até etc. e tal
E o último espelho
Estilhaçado

Alfa e Ômega


Alfa e Ômega



Durmo a vigilância do teu sono
Embalada e embalando o teu ressonar
A sombra impressionista do teu corpo
Revejo teus sonhos em making-off
E guardo em segredo teu último olhar
Fechas os olhos, a escuridão se achega
Não há mais lugar onde possa habitar
És onde estou e onde quero chegar